FRAMEWORKS ESG – Como Comunicar o que Estamos Fazendo

03/10/2025

Com a crescente pressão de investidores, reguladores e consumidores por maior transparência nas práticas ambientais, sociais e de governança (ESG), as empresas enfrentam o desafio de comunicar de forma clara e confiável seus esforços e impactos. Nesse cenário, frameworks consolidados como GRI (Global Reporting Initiative), SASB (Sustainability Accounting Standards Board) e TCFD (Task Force on Climate-Related Financial Disclosures) emergem como ferramentas essenciais para criar relatórios ESG robustos, comparáveis e alinhados às expectativas globais.

Cada um desses frameworks possui características únicas que atendem a diferentes públicos e objetivos. Este artigo explora os principais aspectos, benefícios e exemplos práticos de cada um (e uma estimativa de quanto podem custar), destacando como eles podem ser utilizados de maneira complementar para fortalecer a credibilidade e a estratégia ESG de uma organização.

1. GRI (Global Reporting Initiative)

O que é?

O GRI é um dos frameworks mais conhecidos e amplamente utilizados para relatórios de sustentabilidade. Ele fornece diretrizes para que empresas relatem seus impactos econômicos, ambientais e sociais de maneira estruturada e abrangente.

Características:

Foco no Impacto: O GRI ajuda empresas a avaliar e relatar como suas atividades impactam o meio ambiente, a sociedade e a economia.

Estrutura Modular: Dividido em módulos (padrões GRI universais, específicos para temas e setoriais), facilita a personalização dos relatórios.

Público-Alvo: Usado principalmente por empresas que desejam comunicar seu impacto a uma ampla gama de stakeholders (investidores, reguladores, consumidores, etc.).

Benefícios:

• Aumenta a transparência e a credibilidade da empresa.

• Permite a comparação entre empresas de diferentes setores.

Exemplo: Relatar as emissões de CO₂, consumo de água ou impacto nas comunidades locais.

2. SASB (Sustainability Accounting Standards Board)

O que é?

O SASB fornece padrões específicos de sustentabilidade para ajudar empresas a relatar questões ESG que são financeiramente relevantes para investidores.

Características:

Foco na Materialidade Financeira: O SASB identifica as questões ESG que têm impacto direto no desempenho financeiro das empresas.

Abordagem Setorial: Os padrões são personalizados para diferentes setores, refletindo os desafios específicos de cada indústria.

Público-Alvo: Principalmente investidores e analistas financeiros que buscam entender os riscos e oportunidades ESG relevantes para os resultados financeiros da empresa.

Benefícios:

• Torna os relatórios mais relevantes para o mercado financeiro.

• Ajuda a priorizar questões ESG que afetam diretamente o valor do negócio.

Exemplo: Para uma empresa de energia, o SASB poderia priorizar a gestão de emissões de gases de efeito estufa, enquanto para uma empresa de tecnologia, o foco poderia ser a segurança de dados.

3. TCFD (Task Force on Climate-Related Financial Disclosures)

O que é?

O TCFD foi criado pelo Conselho de Estabilidade Financeira (FSB) para ajudar empresas a divulgar os impactos financeiros das mudanças climáticas nos negócios.

Características:

Foco em Riscos Climáticos: Ajuda as empresas a avaliar e relatar riscos físicos (ex.: eventos climáticos extremos) e de transição (ex.: mudanças regulatórias relacionadas ao clima).

Estrutura Baseada em Quatro Temas: Governança, estratégia, gestão de riscos e métricas/objetivos.

Público-Alvo: Investidores e reguladores interessados no impacto financeiro das mudanças climáticas.

Benefícios:

• Incentiva as empresas a integrarem riscos climáticos em sua estratégia de negócios.

• Ajuda investidores a entenderem como uma empresa está preparada para a transição para uma economia de baixo carbono.

Exemplo: Relatar como uma empresa está se adaptando às metas do Acordo de Paris ou o impacto financeiro de eventos climáticos extremos em suas operações.

Resumo Comparativo:


1. GRI (Global Reporting Initiative)

Custos Diretos:

• O acesso aos padrões básicos do GRI é gratuito no site oficial. Porém, materiais complementares e treinamentos podem ter custos.

• As empresas podem contratar consultores ou especialistas para elaborar os relatórios conforme as diretrizes GRI.

Custos Indiretos:

Coleta de Dados: Requer investimento interno em sistemas e processos para coletar dados de impacto ambiental, social e econômico.

Equipe Interna: Pode demandar treinamento da equipe para seguir os padrões.

Estimativa: Empresas pequenas podem gastar de US$ 10.000 a US$ 50.000 com consultoria e relatórios; grandes empresas podem investir muito mais, dependendo da escala. (inseri o custo em dólares por questões de volatilidade cambial).

2. SASB (Sustainability Accounting Standards Board)

Custos Diretos:

• Os padrões SASB são acessíveis gratuitamente no site oficial, mas o uso em ferramentas comerciais pode exigir licenciamento.

• Certificações, treinamentos e workshops SASB têm custos associados.

Custos Indiretos:

Integração Financeira: Como o SASB é focado em materialidade financeira, pode ser necessário integrar dados ESG com sistemas financeiros, aumentando os custos de TI e auditoria.

Consultoria: Empresas geralmente contratam especialistas para implementar os padrões.

Estimativa: Custos variam entre US$ 20.000 e US$ 100.000 para implementação em empresas médias e grandes, dependendo do setor.

3. TCFD (Task Force on Climate-Related Financial Disclosures)

Custos Diretos:

• O TCFD não cobra por seus materiais; as recomendações são gratuitas e disponíveis publicamente.

• No entanto, ferramentas especializadas para calcular riscos climáticos e adaptar relatórios podem ter custos significativos.

Custos Indiretos:

Análise Climática: Requer investimento em modelagem de cenários climáticos, que pode demandar consultores especializados ou softwares.

Adaptação Estratégica: O TCFD incentiva a revisão de estratégias de negócios, o que pode implicar custos operacionais adicionais.

Estimativa: A implementação pode custar entre US$ 50.000 e US$ 200.000 em grandes empresas devido à complexidade de avaliar riscos climáticos.

Outros Custos a Considerar

Treinamento de Equipe: Workshops e treinamentos oferecidos por esses frameworks podem custar de US$ 1.000 a US$ 5.000 por participante.

Software de Gestão ESG: Muitas empresas investem em plataformas tecnológicas para coletar e consolidar dados ESG, com custos que variam de US$ 10.000 a mais de US$ 100.000 por ano.

Esses frameworks não competem entre si – eles podem ser complementares, dependendo dos objetivos e stakeholders da empresa. Usar um ou mais deles permite que as empresas comuniquem suas práticas ESG de forma eficaz, transparente e alinhada às expectativas globais.

Embora o acesso básico aos padrões seja gratuito (ou de custo baixo), os custos associados à implementação prática podem ser significativos, dependendo da complexidade e do tamanho da empresa. Assim como alternativa, sempre propomos a utilização de indicadores/KPIs, que já são adotados amplamente dentro do mercado, e que normalmente tem custo mais razoável, já que fazemos "em casa". Assim, o que podemos propor de dicas para quem quiser usar os indicadores?

Uso de KPIs (Key Performance Indicators)

Essa abordagem pode ser mais econômica, eficiente e alinhada às necessidades específicas da empresa, desde que planejada adequadamente.

Aqui está um guia para fazer isso:

1. Planejamento Estratégico: Definindo o que é Material

Antes de começar a definir KPIs, a empresa precisa identificar quais áreas de ESG são mais relevantes (ou materiais) para seu setor e modelo de negócio.

Ferramenta útil: Análise de materialidade – uma avaliação das questões ESG mais importantes para a empresa e seus stakeholders.

Exemplo: Para uma empresa de logística, emissões de carbono podem ser críticas. Já para uma fintech, a segurança de dados e o bem-estar dos colaboradores são prioritários.

2. Escolhendo KPIs Relevantes

KPIs são métricas que permitem medir o progresso em cada área de ESG. Aqui estão apenas alguns exemplos para cada pilar:

Ambiental (E):

Emissões de Gases de Efeito Estufa (CO): Toneladas emitidas por ano.

Consumo de Água: Volume consumido em litros por unidade de produção.

Gestão de Resíduos: Percentual de resíduos reciclados ou reutilizados.

Social (S):

Bem-estar no Ambiente de Trabalho

Índice de Satisfação dos Colaboradores: Pesquisa interna de satisfação com o ambiente e condições de trabalho (escala de 0 a 10).

Taxa de Absenteísmo: Percentual de faltas relacionadas a problemas de saúde ou insatisfação no trabalho.

Programas de Bem-Estar: Número de programas ou benefícios oferecidos, como apoio psicológico, academia ou flexibilização de horários.

Cultura de Respeito à Identidade e Inclusão

Diversidade no Local de Trabalho: Percentual de mulheres ou grupos sub-representados em cargos de liderança. (Não esquecendo que hoje essa exigência é legal no Brasil).

Taxa de Rotatividade de Funcionários: Percentual de colaboradores que saem anualmente.

Treinamentos em Cultura de Respeito à Identidade e Inclusão: Horas dedicadas a treinamentos (Exigência legal no Brasil a cada 12 meses, de todos os colaboradores) sobre inclusão e Cultura de Respeito à Identidade (Tenho usado a nomenclatura da "Cultura de respeito a identidade" com excelentes resultados), uma vez que esse é o objetivo do ser humano como sociedade, e é o que queremos ver como resultado de todo esse movimento no futuro.

A humanidade está numa jornada de transformação que pretende alcançar o respeito irrestrito a todos os seres humanos. Quando alcançarmos uma sociedade com respeito total à individualidade, sem preconceitos, exclusões ou julgamentos, teremos alcançado uma Cultura de Respeito à Identidade. É o nosso objetivo, é onde queremos chegar.

Governança (G):

Percentual de Conselheiros Independentes: Proporção de membros independentes no conselho.

Relatórios de Transparência: Número de relatórios ESG publicados anualmente.

Incidentes Éticos: Número de violações do código de conduta ou casos de corrupção reportados.

3. Ferramentas e Recursos Internos

Você pode implementar e monitorar esses KPIs utilizando ferramentas acessíveis, como planilhas ou softwares simples de gestão de desempenho.

Soluções Simples: Microsoft Excel ou Google Sheets para coleta de dados e visualizações básicas.

Automação: Ferramentas como Power BI ou Tableau podem ajudar a criar dashboards para monitorar os KPIs em tempo real.

4. Integração com a Estratégia da Empresa

• Os KPIs devem estar conectados às metas gerais da empresa.

•. Exemplo: Se a meta é melhorar a retenção de talentos, o KPI pode ser "Índice de Satisfação dos Colaboradores," que pode ser impactado positivamente por melhores condições de trabalho.

5. Relatórios Simples, mas Efetivos

Crie relatórios ESG simples que compilem os KPIs monitorados.

• Estruture o relatório em seções: Ambiental, Social e Governança.

•. Use gráficos e tabelas para facilitar a leitura.

6. Vantagens de Fazer Internamente

Custo: Economiza ao evitar consultorias externas.

•. Personalização: KPIs são adaptados à realidade da empresa.

Controle: Toda a equipe pode ser treinada para acompanhar os indicadores, promovendo cultura interna de ESG.

7. Desafios a Considerar

Coleta de Dados: Pode ser trabalhoso, especialmente se não houver sistemas existentes.

Capacitação: Treinamento inicial da equipe é essencial.

Credibilidade: Relatórios internos podem ser vistos como menos confiáveis por investidores ou reguladores, se não auditados.

Exemplo Prático

Uma empresa de médio porte define KPIs como:

• Reduzir emissões de carbono em 15% em dois anos (Ambiental).

• Elevar o índice de satisfação dos colaboradores para 8/10 em dois anos (Social – Bem-estar).

• Publicar relatórios anuais com 100% de transparência (Governança).

Sim, o ESG pode ser implementado internamente com KPIs, incluindo métricas de bem-estar no ambiente de trabalho no pilar Social. Essa abordagem permite construir práticas alinhadas às necessidades da empresa e que geram impacto positivo para colaboradores, stakeholders e o meio ambiente.

Essa prática inclusive facilita o própria monitoramento e divulgação de ações que possuem exigências legais na área trabalhista e ambiental. Assim, seja utilizando os frameworks pagos, seja usando indicadores, há sempre uma forma de divulgar as ações internas de ESG.